2015_03_28 Una strenua chiarezza


Turim é uma cidade vibrante. 
- "Um reduto de italianos!!" sentenciou o João quando já em Lisboa troquei com ele as primeiras impressões sobre a viagem e ele me contou a sua visita a Turim há quase 30 anos. 
As ruas do centro estão inundadas de gente que quer ver e ser vista e pensando melhor não me lembro de me ter cruzado com muitos turistas.
Sábado à tarde, com uma vela na mochila, arranquei com o Filipe e a Sofia em direcção ao centro da cidade. Quase a chegar à Piazza Castello vejo as pessoas começarem a andar apressadamente na nossa direcção, fumo no ar e sirenes ao longe a piscar. Logo a seguir um grupo de polícias corre para uma rua próxima. As pessoas estavam agitadas e entrámos mesmo à justa na casa de gelados que era a primeira etapa do nosso percurso antes dos empregados correrem as grades de protecção das janelas. Depois de reabrirem as portas da geladaria chegámos à praça e o Filipe seguiu para o Museu Arqueológico. 
Estava a chegar à conclusão que todas as saídas da praça estavam vigiadas pela polícia, quando alguns manifestantes marcharam pela praça empunhando bandeiras encarnadas com a foice e o martelo, pararam e fizeram um discurso sobre a imigração (ouvi mais tarde que a Liga Norte fizera uma contramanifestação e daí a presença policial reforçada). Os manifestantes eram pouco mais que umas dezenas e depois desmobilizaram. Os ânimos pareciam serenados, os italianos estavam calmos e concentrei-me no desenho.
Ao entrar na praça reparara numa única carruagem estacionada em cima de duas vigas de caminho de ferro. Era velha e para transporte de mercadorias (pensava eu). Na lateral tinha afixado o anúncio de uma exposição no palácio/galeria mesmo ao lado. I mondi di Primo Levi com o subtítulo Una strenua chiarezza (Uma clareza vigorosa). 
Uma velha carruagem transportada para o meio de uma praça do centro de Turim pareceu-me um bom objecto para desenhar e para responder ao desafio que tinha sido lançado com o tema da ressurreição (escolhi a palavra ressurreição para simplificar como se fosse possível sintetizar numa só palavra as inúmeras pistas que os desafios do Mário permitem trilhar, mas isso é outra estória) e que obrigava a que o mesmo fosse executado com a tal vela que tinha trazido. 
Tinha escolhido a vista e tinha começado as experiências com a vela quando o Pedro Loureiro passou por ali e me explicou que o Primo Levi tinha sido um escritor italiano (nascido em Turim, vi eu depois na wikipédia) deportado para Auschwitz durante a segunda guerra mundial. Se não tinha sido transportado naquela carruagem teria sido numa igual. Passei a olhar para a carruagem com outros olhos e os meus sentimentos em relação à carruagem tinham mudado. Aquela era a carruagem em que tantas pessoas, em péssimas condições, tinham sido conduzidas para a morte. Aquela carruagem tinha resistido a uma previsível destruição e setenta anos depois da libertação de Auschwitz estava ali no meio da praça para nos obrigar a não esquecer. 
Uma memória viva.

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